"Considero a falta de uma reforma política um dos maiores gargalos para avançar em mudanças de que o Brasil ainda precisa"

Considero a falta de uma reforma política um dos maiores gargalos
para avançar em mudanças de que o Brasil ainda precisa. Minha convicção é
de que o sistema que estamos propondo é muito melhor do que o que temos
atualmente.
O alicerce da reforma que está prevista para ir a votação no plenário
da Câmara é o financiamento público exclusivo de campanha – proposta
que tem o apoio da OAB e da CNBB, entre outras entidades. Estou
convencido de que retirar das eleições o dinheiro colocado pelas grandes
empreiteiras, bancos e por outros setores empresariais fará muito bem à
democracia brasileira. Também acredito que esta é uma importante
ferramenta de combate à corrupção, que garantirá mais independência para
os governos e parlamentares e que trará maior igualdade entre os
competidores. A votação na Câmara permitirá a cada parlamentar e a cada
partido posicionarem-se perante a sociedade.
A democracia brasileira é, cada vez mais, uma democracia do dinheiro
e, cada vez menos, uma democracia de ideias e projetos. O dinheiro é
cada vez mais decisivo no processo eleitoral. As prestações de contas ao
TSE revelam que das 513 campanhas mais caras para deputado federal em
2010, 379 foram vitoriosas. Os 513 eleitos gastaram, em média, 12 vezes
mais do que o restante dos candidatos. Em oito anos, os gastos em
campanhas saltaram de R$ 800 milhões para R$ 4,8 bilhões.
É preciso dizer com clareza e transparência que, hoje, a democracia
no Brasil é, no essencial, financiada por não mais do que 200 empresas.
Estas empresas sempre terão negócios e interesses a tratar com os
governos. Alguém imagina que o ambiente gerado nesta relação é o melhor
para fortalecer um sistema democrático republicano? Com a adoção do
financiamento público exclusivo, com forte redução do custo das
campanhas, vamos fechar uma das principais portas de entrada da
corrupção nos negócios entre o setor público e o privado.
Para quem acha que com isso vamos começar a pagar as campanhas com
dinheiro do nosso bolso, permitam-me afirmar que já estamos pagando por
elas de duas formas. Na maneira legal, as empresas embutem o valor que
gastaram no processo eleitoral nos produtos que consumimos. Já na
maneira ilegal de cobrar esta fatura, vamos observar superfaturamentos,
contratos privilegiados e licitações dirigidas, quando não a entrada do
dinheiro do crime organizado na política.
Além da alteração na forma de financiamento da democracia, minha
proposta abrange outras mudanças no sistema político: sistema de votação
em lista flexível, pelo qual o eleitor segue votando como hoje, no
partido ou no candidato, fim das coligações proporcionais, ampliação dos
espaços da mulher na política e facilitação da participação popular
permitindo o apoio a projetos de lei através de assinatura digital.
Os avanços econômicos e sociais obtidos no Brasil nos últimos anos
são muito significativos, mas o avanço da cultura política deixa a
desejar. Agora, precisamos inovar o nosso sistema político e dar passos
seguros rumo ao fortalecimento da democracia.
Henrique Fontana é deputado federal (PT-RS), relator da reforma política na Câmara Federal.
(Artigo publicado originalmente no jornal Zeo Hora, edição de 05/04/2013)
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