
Muitos moradores saíram apenas com os documentos e a roupa do corpo | Foto: Divulgação/Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos
Samir Oliveira
O pedreiro Benedito Alves, de 52 anos, acordou às 5h30 de domingo (22) para tomar um copo d’água. O dia mal se anunciava, mas ele já percebia que havia algo estranho em Pinheirinho. “Escutei barulho de helicóptero e, quando saí para a rua, tinha 200 policiais na volta”, lembra.
Benedito só teve tempo de chamar sua esposa, que tem 64 anos, e sair correndo de casa, conforme ordenavam os homens fardados com armas nas mãos. No meio da confusão, o pedreiro não escapou de ser alvejado na perna. “Mandaram sair e pegar somente os documentos e uma muda de roupa. Fui agredido, levei um tiro de borracha na perna, foi um caos muito grande”, comenta o morador de Pinheirinho – bairro pobre da cidade de São José dos Campos, em São Paulo, que foi invadido pela Polícia Militar, que executava uma ação de reintegração de posse sem a permissão da Justiça Federal.

Expulsos de suas casas, moradores se amontoam em abrigos improvisados | Foto: Filipe Jordão
Expulso de sua casa e jogado num abrigo sem colchão, banheiro, cobertor ou perspectivas, o pedreiro apela ao único poder no qual confia: “Só mesmo Deus para nos ajudar numa hora dessas”.
“Nos tiraram de lá que nem cachorros”
A diarista Climelta de Souza Abreu, de 30 anos, está desesperada. Expulsa do lugar onde vivia há oito anos, ela não sabe o que dizer a suas filhas – de 14, 10, 9 e 6 anos. “Eles me perguntam onde nós vamos morar e eu não tenho nenhuma resposta para dar. Não tenho para onde ir”, lamenta, sem conseguir conter as lágrimas.
Assim como toda a população de Pinheirinho, Climelta foi escorraçada de sua casa e agora se amontoa com suas crianças numa igreja nas redondezas. A diarista ainda está horrorizada com a maneira como ela e seus vizinhos foram tratadas pela polícia. “Nos tiraram de lá que nem cachorro. Bateram em várias mulheres, inclusive em grávidas”, conta.
“Virou um campo de guerra”
A ação da Polícia Militar de São Paulo para desocupar a comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, não ocorreu por acaso num domingo. Assim como não foi por acaso que ocorreu sem nenhum tipo de aviso prévio.
O poder público sabia que os mais de 5 mil moradores do local estavam dispostos a proteger com a vida o terreno inativo há mais de 30 anos e que utilizavam como lar desde 2004. Nas últimas semanas, na iminência de uma ação policial, os habitantes de Pinheirinho haviam se armado com paus, escudos e canos de PVC.

“Estavam sitiados com a tropa de choque na porta de suas casas. Começou uma reação dos moradores e virou um campo de guerra”, descreve a jornalista Eliane Mendonça, do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.
“A Justiça trabalha pelo direito à propriedade, não pelo direito à dignidade”, critica deputado
Assim que ficou sabendo da ação policial para arrancar os moradores de Pinheirinho de suas casas, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) se deslocou para o local, onde chegou ainda na manhã de domingo (22). Assim como todas as autoridades que tentaram interceder para que a operação não ocorresse, o parlamentar não conseguiu transpor a barreira policial que bloqueava o acesso ao bairro.
O deputado lamenta que a ação da polícia tenha ocorrido à revelia de duas liminares que impediam a desocupação de Pinheirinho: uma extinguindo por 15 dias o processo de falência da empresa detentora do local – de propriedade do empresário Naji Nahas –, e outra da Justiça Federal impedindo a reintegração de posse. “É uma Justiça que trabalha pelo direito à propriedade, não pelo direito à dignidade humana e à vida”, critica Ivan Valente.
Presente para avalizar a ação, o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Rodrigo Capez, irmão do deputado estadual Fernando Capez (PSDB), ignorou a liminar entregue por um oficial da Justiça Federal e garantiu a continuidade da desocupação.

Ivan Valente está recolhendo denúncias de abusos ocorridos contra moradores e pretende convocar uma audiência pública para tratar do caso na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. “Vamos convidar testemunhas e autoridades, inclusive o prefeito Eduardo Cury”, adianta.
Secretário da presidência da República levou um tiro na perna
Não foram somente os moradores pobres de Pinheirinho que foram alvejados pela polícia durante a ação de reintegração de posse ocorrida no último domingo (22). Dessa vez, a repressão foi, a seu modo, democrática: atingiu até os altos escalões de Brasília.
O secretário nacional de Articulação Social, Paulo Maldos, subordinado ao ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, foi atingido na perna por uma bala de borracha enquanto tentava, em vão, interceder junto à polícia.
A identificação oficial e a autoridade de quem representava a presidente Dilma Rousseff não foram o bastante frente à truculência. “Peguei o meu cartão da Presidência, mas o que recebi foram armas apontadas para mim”, disse o secretário, em declaração à imprensa nesta segunda-feira (23).

Depois de ser alvejado, Paulo Maldos tentou, novamente, se identificar como representante da Presidência da República. A única resposta que ouviu de um oficial da Polícia Militar foi um deboche: “Se você quiser, vai pedir para a sua presidente vir falar comigo”.
Informações desencontradas sobre mortos e feridos

Porém, entre os moradores expulsos de suas casas, pipocam inúmeras informações, dentre elas a de que teriam ocorrido sete mortes – inclusive a de uma menina de quatro anos, que teria sido atingida no pescoço por uma bala de borracha. Além disso, há denúncias de que pessoas estão desaparecidas.
“Oficialmente, nem a prefeitura nem a polícia confirmam nada. Mas cada morador tem uma história para contar. Há crianças desaparecidas, mães que procuram seus filhos e filhos que procuram seus pais idosos”, relata a jornalista Eliane Mendonça, que passou a segunda-feira (23) numa igreja convertida em acampamento.
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB de São José dos Campos, Aristeu César Pinto Neto, garantiu que a operação policial fez vítimas fatais. “O que se viu foi a violência do Estado típica do autoritarismo brasileiro, que resolve problemas sociais com a força da polícia. Há mortes, inclusive de crianças. Estamos fazendo um levantamento no IML e tomando as providências para responsabilizar os governantes que fizeram essa barbárie”, disse, em entrevista à TV Brasil.
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